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Pajé Sérgio, força espiritual e cultura que resistem ao tempo

19 de abril de 2017

Na semana que se comemora o Dia do Índio (19 de abril), a história do pajé Sérgio Maceno, Karai Tataendy, de 54 anos, é um retrato místico da cultura indígena, de seus valores como povo e seu legado para os juruá (não-índio). Na Casa de Reza, ele toca violão, canta, fala do batismo, de remédios naturais, benze os visitantes e aponta o egoísmo como um fator negativo da nossa sociedade. Pede respeito à cultura indígena. É uma viagem à ancestralidade, ao lado desse aprendiz da pajelança, Pai de Todos.

Pequeno na estatura (cerca de 1,60 m), pajé Serginho vai ganhando tamanho conforme fala de sua experiência espiritual. Suave nas expressões e de voz tranquila, ele “retira” o ritmo dos visitantes, conta sobre um Deus que é pai e mãe. E, talvez por confusão da língua ou inspiração, chama esse mesmo criador de Ele e Ela.

Nascido na Aldeia Rio-Silveira, na divisa de Bertioga e São Sebastião, estuda há 30 anos para ser pajé. Diz que não está pronto. Estará quando tirar qualquer doença, mau espírito ou energias negativas, passando somente a mão em uma pessoa. Esse “grau” espiritual pode acontecer em meses, anos, ele não está preocupado. É uma vida dedicada ao aprendizado.
Na cultura guarani, uma pessoa sabe muito cedo que é um predestinado. “A espiritualidade não vem do pai ou mãe. Você é iluminado pelos espíritos. Muitas vezes, a mãe sonha. Ou, quando a criança é batizada e recebe o nome guarani [aos dois anos], o pajé fala se ela é especial e pode fazer esse trabalho”. No caso do pajé Sérgio, foi o avô, Tupã (filho do trovão), quem revelou essa tendência. “Eu tinha dois anos. Foi no batismo”.

O batismo, aliás, é uma cerimônia essencial para o guarani. “O pajé dá o nome, por isso, tem que estar concentrado uns quatro dias, para ter uma luz que informe o nome da criança, se o pajé não estiver concentrado, pode errar. Por isso, a importância do batismo”.

Os sonhos tem um papel importante para Karai Tataendy. Ele foi chamado à tarefa espiritual em um deles, por um espirito amigo. Além disso, o cajado que usa durante as rezas e o colar de sementes (da planta Lágrima de Santa Maria) também foram visões de seus sonhos, que se concretizaram depois. Para o futuro, ele pretende fazer um grande arco e flecha para a Casa de Reza.
Sérgio conta que passou por muitas dificuldades neste caminho e que vivenciou a cura espiritual. Das cerimônias que realiza, tem apreço pelo batismo de reza, que é realizado em agosto (início do ano novo) e em fevereiro (início do ano velho). “É para nos fortalecer. Tem uma reza especial, com cânticos, danças, cachimbo com fumo de corda e uma bebida feita de milho verde, que serve para purificar o corpo material e espiritual”.

Além dessa, tem a reza diária, a reza das mulheres, a reza dos meninos, quando eles mudam de voz aos 13 anos e a dança do Xondaro (dos guerreiros). “Dentro da reza existem várias atividades: o Conselho ensina as crianças sobre respeito, natureza, leva para os jovens o que a gente aprendeu com nossos antepassados”.

Sobre a sociedade, o pajé diz que “Deus construiu tudo para viver em harmonia. [comunidade, pessoa, espírito] São um só. Gerados de um pai e uma mãe, todos nós, do planeta todo. Nós da comunidade pensamos assim”.

Seja como conselheiro da comunidade, protetor da cultura e valores ancestrais, raizeiro, ou somente como um ser de luz, Karai Tataendy é uma viagem às emoções mais genuínas e primitivas Da Nossa Terra.

Confira a faleria de fotos (clique na imagem para ampliar)